domingo, 29 de abril de 2012

A Democracia Perversa


 

''A democracia, entendida no sentido republicano como uma vida pública saudável e vibrante que amadurece e esclarece o ego privado, rapidamente se deteriorou sob os imperativos do crescimento e da guerra''. Alan Wolfe (1985)
      Os EUA são os principais representantes dos valores conquistados pelos meios democráticos. Esses valores foram idealizados através de um movimento pela construção de uma democracia republicana com os ideais de liberdade em seus alicerces profundamente defendidos pela formação política do país em seus primórdios. Sem dúvida quando se fala em uma democracia mundial, o senso comum destaca primeiramente o modelo político estadunidense, como se esse modelo fizesse parte de uma doutrina democrática com seus ideais e valores morais que devem ser seguidos e copiados para o bom convívio entre os povos. Mas então que democracia é essa que se comporta como defensora dos ideais e valores democráticos e, ao mesmo tempo, promove guerras, invasões e massacres disseminando o terror através de uma gigantesca máquina de guerra, sendo esse país considerado um exemplo de democracia e liberdade? Os EUA se envolveram, e continuam se envolvendo, em várias guerras de dimensões catastróficas no planeta na história recente. Prevalece o sistema de ‘’guerra aos fracos’’ (Ver texto: ‘‘Guerra aos Mais Fracos e Vulneráveis’’) tragicamente  estabelecido ainda no período da Guerra Fria, ou seja, a guerra direcionada contra estados e nações fracos e de populações vulneráveis que não podem reagir à agressão á altura.
     Dentro da complexidade da questão, intelectuais estudam e ocorre produções de  trabalhos sobre as características do modelo de democracia dos EUA. O que alguns estudiosos definem, como o sociólogo estadunidense Alan Wolfe, são as formas, como ocorreu às deformações dentro do sistema democrático estadunidense e as implicações desse fenômeno que possibilitou a ascensão de novos atores hegemônicos políticos e econômicos. Essas novas forças hegemônicas controlam a sociedade daquela que é considerada a maior democracia desenvolvida do planeta estabelecendo um modelo político e econômico modernizador, expansionista e perverso. Como já mencionei em outro texto, a maior parte da oposição ao militarismo dos EUA vem dos cidadãos mais esclarecidos do próprio país.  Vamos então as análises sociológicas e históricas  de Alan Wolfe e suas abordagens sobre as características da democracia estadunidense e suas implicações para a sociedade do país e para a humanidade:
   ‘’Nos EUA, duas concepções de democracia rivalizaram entre si, uma baseada na noção de república, outra se voltou para a expansão modernista. Uma forma republicana de governo seria de pequena escala, regionalista, pacifista, virtuosa, elitista e o modelo democrático era composto tipicamente por uma classe media, onde os cidadãos decidiriam seu destino por contratos diretos. Uma republica democrática seria reflexiva, deliberada e estável, incompatível com uma rápida industrialização ou com preparações bélicas. Por outro lado, as elites modernizadoras mantinham uma política nacionalista, belicosa, crescente, dinâmica e desejavam usar o estado para seus propósitos de expansão militar e industrial. Os nacionalistas precisavam de um projeto para superar a resistência republicana e o período entre a guerra Hispano-Americana (1898) e a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) contribuíram aos seus propósitos pela arte de mobilizações das paixões populares, implementadas por lideres modernizadores como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson. Quando as energias democráticas se uniram as tendências modernizadoras, criou-se uma nova forma de democracia popular irritadiça, facilmente manipulável e demagógica. A guerra foi o ingrediente essencial para transformar o republicanismo democrático em democracia perversa (WOLFE, 1985, p.211-213).
   A guerra contribuiu sobre qualquer outro fator para a expansão da política nos EUA. Essa ‘’organização do entusiasmo’’ conseguiu reunir vastos contingentes de jovens trabalhadores operários e camponeses para sacrificar suas vidas em combate em todos os cantos do país para um ‘’bem comum’’. A guerra e a democracia perversa passam a se reforçar mutuamente. A manipulação desencadeada pela guerra tornou-se um modelo da dinâmica da opinião publica na democracia moderna. A própria guerra difundiu os laços uniformizadores e homogeneizadores que constituem os critérios de cidadania na democracia perversa. A democracia permitia aos despossuídos uma utopia onde a opressão da vida cotidiana cederia á camaradagem, á dignidade, á honra e à igualdade entre todos. A guerra contribuiu para esse ideal, mesmo de forma distorcida. A guerra oferece uma maior gratificação democrática e, conseqüentemente, um elevado controle estatal e uma maior concentração de poder na autoridade executiva. A guerra pervertera as demandas democráticas e a democracia perversa avançaria quando as demandas de crescimento se somaram as exigências da guerra (WOLFE, 1985, 214).
     Nos EUA, o crescimento econômico é um elemento considerado intrínseco à democracia porque esse crescimento representa a prosperidade material. Se o crescimento econômico entrar em crise, a democracia é afetada da mesma forma. Os benefícios adquiridos pela guerra e o crescimento econômico, simbolizado pelo Produto Interno Bruto – PIB, acentuou o escopo quantitativo da democracia, mas à custa da sua qualidade. Como descreve Wolfe no texto Política Perversa e Guerra Fria (1985), nenhuma sutileza do pensamento político esclarecido sobreviveria ao materialismo crasso da expansão econômica e a homogeneidade crassa da militarização:
 O estado democrático moderno foi tão amplo na base quanto estreito em propósitos. As tarefas do estado determinaram o que se permitiria como demanda democrática, mais do que as demandas democráticas moldaram o caráter do estado. A vida publica devia girar em torno da guerra e do crescimento, e a democracia deveria se adaptar a isso. A democracia se adaptou. Na verdade, uma sociedade de massas composta por indivíduos geralmente não pensantes, freqüentemente ignorantes, complacentemente privatizados, a expressar sua vontade em atividades publicas descontextualizadas, fragmentadas e impotentes, de forma a-histórica e muitas vezes contraditória, dificilmente seria um obstáculo a realização do crescimento e da guerra, e ate parecia a muitos o sistema mais perfeito possível para realizar esses fins (WOLFE, p. 215, 1985).
    Segundo Alan Wolfe, a Guerra Fria contribuiu inteiramente para transformar a democracia estadunidense de uma visão republicana para uma revisão modernizada perfeitamente adaptada as lutas da guerra e as tarefas de expansão do estado. Ao invés de sustar a guerra, a democracia contribuiu com ela. A união entre a guerra e a democracia perversa se solidificou com a permanência da tensão internacional, mas foi com as inovações tecnológicas (incluindo a nuclear) que a se problematizaria a questão unindo tecnologias militares sem precedentes a uma ignorância política sem precedentes. Comprimidos entre memórias democráticas e realidades de alta tecnologia, os estadunidenses se entregam ao fetiche em apoiar as guerras e ao mesmo tempo se portarem como ‘’pacificadores’’. Na mente do povo, a guerra ainda tem uma relação com honra e dignidade. Quando se envolve ameaças a segurança nacional, a sociedade se volta toda ao manto militarista. A oposição invoca o governo, os sindicatos participam, os meios de comunicação cooperam, sacrificam-se os orçamentos equilibrados, tolera-se a inflação e aceitam-se os déficits comerciais. Em suma, nenhuma outra questão é mais manipulável do que a envolvendo a segurança nacional (WOLFE, 1985, p.216-221)’’.
     A facilidade da manipulação descrita por Wolfe é assegurada por um enorme mecanismo de controle econômico, educacional e midiático. As vítimas desse sistema são inúmeras, desde os trabalhadores recrutados como soldados do país (Os soldados que morrem nas guerras são, geralmente, das classes mais pobres da população dos EUA) até os infelizes habitantes das regiões assoladas pela guerra ao redor do mundo. Nos dias atuais, a sociedade dos EUA permanece em sua nostalgia delirante e perigosa da dogmática segurança nacional. Como afirma Wolfe, a ampliação da guerra e o crescimento da democracia perversa seguem juntos. É ‘’a barraca militar, onde todos dormem lado a lado’’. Quando as guerras de hoje terminar, certamente, outras irão começar, resta saber quem serão as próximas vítimas da hegemônica máquina de guerra mundial. A grande mídia já atua na preparação do terreno para novas investidas militares sempre nas áreas mais pobres do planeta.
   
Referências:
-WOLFE, ALAN. Política Perversa e Guerra Fria. Coletânea de textos: Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense. São Paulo, p. 206-237. 1985

-Foto: Massacre de Mi Lay, Vietnã (1968) :
MUNDIAL, COPYRIGHT. O Livro da Vida: Morte por Atacado. Londres: Marshal Cavendish Limited, 1971. P. 2362-2367.





  

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quarta-feira, 21 de março de 2012

A corrida armamentista dentro da corrida armamentista




A tabela acima mostra o imenso desenvolvimento técnico das indústrias de armas na atualidade, segundo dados do Instituto de Pesquisas da Paz de Estocolmo - SIPRI. As empresas que mais produzem artefatos de destruição e morte no mundo são dos EUA, incluindo na lista estão outros países como Grã-Bretanha, Rússia e Itália. O colosso industrial militar atual, construído após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), desenvolveu um poder econômico e político de grandes proporções a ponto de conseguir submeter às pesquisas mais avançadas em tecnologia ao seu comando. Esse desenvolvimento técnico e cientifico garantiu grandes avanços tecnológicos e, dessa forma, ganhou defensores do continuísmo desse processo nas principais potências bélicas mundiais. As corridas armamentistas mundiais são combustíveis para a produção, desenvolvimento e comercialização de armas. Quando falamos em corrida armamentista mundial, denominamos as relações internacionais entre os Estados que possam se elevar a um nível de tensão culminando com demonstrações de força militar a qual depende de dispendiosos investimentos de recursos financeiros devido ao alto custo dos materiais bélicos. O Estado moderno não abre mão da sua soberania e do controle sobre o seu território. No entanto, as grandes potências, historicamente, costumam definir os direcionamentos das relações internacionais de acordo com seus interesses estratégicos podendo acarretar em intervenções militares se julgarem necessário na defesa de seus interesses.
   São várias as corridas armamentistas que ocorrem atualmente no planeta, mas tem uma corrida armamentista que é pouco conhecida e essa ocorre no interior das próprias corridas armamentistas nas grandes potências bélicas, como os EUA. Durante a Guerra Fria, os EUA e a URSS se transformaram em verdadeiros complexos industriais militares, mas ocorria uma diferença entre ambos as superpotências naquele período. Na URSS, as forças armadas estavam todas subordinadas ao sistema burocrático estatal e constituíam um mesmo conjunto submetido ao total controle do governo e, dessa forma, não havia distinções entre as forças naval, aérea, terrestre e estratégica. Nos EUA, a situação era muito diferente, no interior da corrida armamentista e na produção maciça de armamentos, ocorria à disputa entre as forças armadas para mais verbas e recursos do Estado. Exército, Marinha e Força Aérea disputavam recursos do governo e as empresas, vinculadas as forças, competiam também entre si para conseguir ampliar o fornecimento de armas desencadeando uma corrida armamentista dentro do próprio estado, pois sendo o Estado o comprador é ele que garante os lucros dos negócios surgindo um poderoso ‘’Lobbes de armamentos’’ que se perpetuou no interior da política e da sociedade dos EUA. A URSS perdeu a corrida armamentista e um dos fatores foi por não ter em seu interior um Estado dentro do Estado como era, e ainda é, o setor armamentista nos EUA. A influência do setor de armamentos cresceu a ponto de militar a própria política transformando, segundo o historiador britânico Edward Thompson, os próprios armamentos em agentes políticos.
  A concorrência entre as corporações e as disputas entre as forças armadas por mais recursos contribuíram para a crescente militarização da política. A frágil democracia dos EUA se adaptou ao sistema e a sociedade também. Ainda segundo Thompson, a influência dos sistemas de produção de armas tornou civil o setor militar e em contrapartida mais civis se militarizam contribuindo para o controle da opinião e se amparando na perpetuação da crise bélica. Thompson afirma interessar aos grupos dirigentes a permanecia da crise bélica mundial para legitimar seus papéis, interesses e privilégios e desviar a atenção da evidente irracionalidade das operações. Dessa forma, se entende porque novos antagonismos são criados e justificados para a permanência da corrida armamentista e da crise bélica. Em meio à crise econômica atual,  o governo de Barack Obama anunciou investimentos de cento e cinqüenta bilhões de dólares no desenvolvimento de novas armas e o orçamento de defesa atual continua em mais de meio trilhão de dólares, ou seja, no mesmo patamar dos últimos anos do governo Bush.
   Os defensores dos investimentos em pesquisas bélicas alegam o extraordinário desenvolvimento técnico adquirido pela produção de armas como geradores de grandes avanços para a humanidade em conhecimento. No entanto,  segundo outras análises, apesar dos avanços técnicos desse processo, ele não representa um progresso efetivo, mas sim constitui em um sistema parasita e arbitrário que precisa ser superado pela humanidade, o que será analisado em outro texto.
Referências:
THOMPSON, Edward. Notas sobre o exterminismo, o estágio final da civilização. Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense S.A. São Paulo, p.15-57. 1985.
Foto: Rogério Jordão. disponível em:
Acesso em: 20/03/2012.
Esquerda Net. Disponível em: http://www.esquerda.net/artigo/eua-empresas-lucram-com-guerra-permanente. acesso em 20/03/2012.