segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A Ascensão do ''Estado Fortaleza'' (Última Parte)




A Segunda Guerra Mundial (1939-1945), segundo o historiador argentino Oswaldo Coggiola, foi um conflito que se caracterizou por uma Guerra Civil capitalista por suas características contra-revolucionárias, sendo o movimento revolucionário dos trabalhadores russos de 1917 totalmente aniquilado por ambas as potências envolvidas nos dois lados do conflito. Por outro lado, a Guerra Fria consolidou um novo sistema ideológico. Os EUA e a URSS, com seus respectivos blocos, não apenas polarizaram o poder político mundial, mas também impediram qualquer forma de se estabelecer alternativas a essa política ideológica e antagônica. A impossibilidade de ocorrer uma oposição efetiva a esse sistema foi assegurada por uma gigantesca corrida armamentista em ambas as potências e pelo crescimento do militarismo. Esse fenômeno no pós-guerra possibilitou a ascensão do complexo industrial militar nos EUA sob a bandeira da democracia, o que vamos analisar em outro texto juntamente com o estudo das análises de Coggiola.
    Nessa ultima parte do texto, Cook destaca os acontecimentos que deram início a Guerra Fria e o fortalecimento dos militares na política dos EUA reduzindo à democracia do país a meras funções eleitoreiras abrindo caminho para o avanço da militarização da sociedade estadunidense. Outro fator, é a utilização maciça da propaganda militar. No cartaz acima, os comunistas são estereotipados como monstros assassinos e devoradores que vão destruir os EUA, representados pelo inimigo soviético. Cook destaca o enriquecimento acelerado do pentágono e a influência cada vez maior dos militares e dos industriais na política dos EUA. Ocorre profundas semelhanças entre a propaganda contra os inimigos da Segunda Grande Guerra com os comunistas no período da Guerra Fria para intensificar os gastos militares. Dessa forma, qualquer semelhança com a propaganda da ‘’Guerra ao Terror’’ atual não é mera coincidência. Retornaremos as abordagens das narrativas e análises de Cook.
     ‘’Um discurso radical proferido por Virgil Jordan, presidente do instituto nacional de conferencias industriais em 12 de fevereiro de 1946, exaltaria o povo americano a utilizar a sua força dominante militar e industrial para dominar o mundo, ou seria dominado e destruído pelo inimigo – o socialismo. Esses discursos inflamados e a intensa propaganda patriótica seria a muleta do estado militarista e criaria um poder eficiente e massificador que se perpetuaria na sociedade dos EUA e nos dias atuais permanece tão forte como nunca. Especialistas em táticas de propaganda passaram a trabalhar em conjunto com o pentágono. Cada general e almirante, cada base e quartel general criara seu próprio departamento publicitário. Em 1947 a marinha contava com 601 especialistas em propaganda. Em 1948 o exército e a força aérea tinham 810 militares e 557 civis atuando em publicidade. O pentágono distribuía dez mil fotografias por mês para jornais, revistas, estações de TV e companhias cinematográficas. Filmes de Cowboy criava antagonismos entre gente boa e má. O slogan da força aérea passou a ser ‘’Força aérea significa força de paz’’. Em 1948, o general Douglas Mac Arthur tinha cento e trinta e cinco militares e quarenta civis trabalhando como pessoal publicitário no extremo oriente, o estado maior tinha quarenta e quatro militares e cento e treze civis cuidando das relações publicas e o comandante do teatro europeu tinha cento e sete militares trabalhando para divulgar sua imagem (COOK, 1964, p. 84-88).
    A redução do contingente de dezesseis milhões de soldados para um milhão em 1945 intensificaria a ofensiva dos militares para a criação de uma força permanente em tempos de paz. Em 1947, ocorreu à rejeição do congresso ao plano do pentágono de ter um exército de dez milhões de soldados para um treinamento militar universal, mas a crise de Berlim provocada pelos russos elevaria a tensão e a propaganda se intensificaria em que os russos desejavam ‘’escravizar’’ toda a Europa ocidental. Em 1948 os militares já eram os maiores patrocinadores do radio. Nesse trecho de O Estado Militarista, o jornalista e historiador estadunidense Fred. J. Cook destaca as principais estratégias que direcionaram a sociedade dos EUA a militarização profunda de forma que os militares e o complexo industrial superariam o poder civil:
Os lideres da indústria e dos negócios foram convocados para conferencias de ‘’orientação’’, supostamente para serem informados de alguns segredos militares, e regressaram para suas casas como propagandistas do ponto de vista dos militares. O departamento de guerra criou uma divisão feminina especial e dirigiu todo o poder da sua influencia sobre os grupos e associações de mulheres para ganhar o seu apoio á mobilização dos seus filhos. Histórias em quadrinhos idealizando a vida militar começaram a aparecer em todos os jornais para ganhar o apreço das crianças; os colaboradores do radio e da televisão foram educados para transmitir o ponto de vista militar; oficiais enganadoramente vestidos a paisana foram colocados entre o publico de programas e debates para darem aos seus irmãos oficiais, estes em uniforme, as respostas adequadas às perguntas do palco ou do estúdio; um batalhão de elite especialmente e especializadamente treinado foi formado em Fort Knox, com o fim de assistir em peso á missa, sem a presença das mulheres que o influenciasse, para convencer os padres de que este seria o padrão religioso geral do treinamento militar universal; e, por ultimo, mas não o método menos ineficaz, os opositores dos objetivos militares foram representados como sendo deficientes mentais ou elementos subversivos e, ao mesmo tempo, lançou-se uma campanha de medo e terror deliberados para convencer o povo americano de que estávamos virtualmente á beira de uma guerra com a Rússia e de que a nossa existência nacional estava em jogo (COOK, 1964, p. 94).
   Em 1948, o secretario de defesa James Forrestal em declaração á imprensa afirmaria que a democracia dos EUA foi fundada sobre uma base de desconfiança pelos exércitos e pela força, e deveria a população compreender que o exército é parte da população e é de responsabilidade do cidadão o serviço militar. Passou a ocorrer a inversão dos papeis em que não havia a responsabilidade dos serviços para com a população, e sim a responsabilidade da população para com os serviços. Ainda naquele ano o congresso dos EUA aprovou o plano de treinamento militar universal e, previsto para durar dois anos, continuaria a partir de 1950 com a guerra da Coréia. As táticas de propaganda foram fundamentais para esse resultado. Em 1950, o pentágono possuía mil e oitocentos especialistas em propaganda ao seu serviço (COOK, 1964, p.89).  
    Nesse contexto qualquer oposição seria considerada como subversiva e acusada de falta de patriotismo. Os gastos militares permaneceriam elevados e os militares se sentiram ainda mais fortes auxiliados pelo crescimento dos negócios industriais. A decoração democrática através das urnas seria mantida e as decisões políticas passariam agora a ser influenciadas e pré-determinadas pelo uniforme. A propaganda atinge os eleitores e o poder dos militares se sobrepõe as autoridades civis e o congresso passa a não controlar mais os militares. Os gastos militares explodem e aumenta a cada ano beneficiando as grandes corporações. O colosso militar industrial adquiriu, a partir de então, através da ideologia do ‘’inimigo comum’’ soviético proporções difíceis de calcular. Alguns números são significativos para comparar o grau de enriquecimento do departamento de defesa dos EUA, até no inicio dos anos 1960 o pentágono possuía trinta e dois milhões de acres de terras nos EUA e 2,6 milhões de acres em países estrangeiros, área superior aos estados de Rhode Island, Delaware, Connecticut, New Jersey, Massachusetts, Maryland, Vermont e New Hampshire. O prédio do pentágono é muito maior do que o capitólio, sede do governo do país (COOK, 1964, p. 24).
    No governo Eisennhower, os gastos com defesa foram de quarenta e seis bilhões de dólares anuais e passariam á 57,6 bilhões no governo Kennedy. Os bens dos militares passariam a ser superiores as grandes companhias civis no período, superando em três vezes o patrimônio total da United States Steel, American Telephone e Telegraph, Metropolitan Life Insurance Company, General Motors e Standard Oil de New Jersey. Em contrapartida com o aumento dos gastos militares, as grandes corporações do complexo industrial militar arrecadaram bilhões de dólares a cada ano com os negócios em especial a General Dynamics, a Lockheed e a Boeing. As indústrias militares também empregavam militares em seus quadros, em uma averiguação em 1961 se constatou que mais de mil e quatrocentos oficiais aposentados, da patente de major para cima, estavam empregados pelas cem maiores corporações, incluindo nessa lista estavam duzentos e sessenta e um generais e almirantes (COOK, 1964, p.25).’’
     Para finalizar, a história demonstra através de trabalhos investigativos e analíticos, como esse documento de Fred. J. Cook (1911-2003), que a realidade sócio-cultural, econômica e política da maior democracia desenvolvida do planeta esta fundada nas bases de um militarismo que a controla. O combustível para o continuísmo desse processo é a manutenção de um antagonismo que favorece a tensão militar global e, mesmo após o fim da Guerra Fria, predomina na história atual o surgimento de novos inimigos comuns sempre sob o suporte dos valores da democracia. Uma democracia associada á uma lógica e um olhar militar. Um modelo que fascina e assusta pela sua grandiosidade, influência e complexidade, e assim teremos diversos temas para abordar nos próximos textos.


Referências:
COOK, FRED.J. O Estado Militarista. O crescimento do militarismo. Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro. 1964, p.37-65.
COGGIOLA, OSWALDO. Segunda Guerra Mundial: Um balanço Histórico. ed. Xamã/EDUSP. São Paulo. 1995. 
Foto: Cartazes de propaganda da Guerra Fria. PaperBlog, disponível em:  http://pt-br.paperblog.com/cartazes-de-propaganda-da-guerra-fria-100901/ acesso em 25/02/2012.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

A Ascensão do ''Estado Fortaleza'' (Continuação)




A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) permitiu uma aproximação entre os militares e os grandes industriais nos EUA. Naquele contexto, a produção de guerra se transformaria em um trunfo na superação da crise econômica que já se arrastava desde o período de início da Grande Depressão no final dos anos 1920. A devastadora crise econômica no mundo capitalista propiciou a ascensão do Nazi-Fascismo na Alemanha e Itália como proposta de superação do catastrófico declínio econômico. Nos EUA, a eclosão da guerra possibilitou a superação da crise econômica com a aceleração da produção industrial, praticamente anulando o desemprego no país resultando no estabelecimento do Complexo Industrial Militar. O cartaz acima apresenta uma propaganda dos industriais para intensificar a produção de guerra. Os nazistas e os japoneses foram associados a monstros devoradores. Após o conflito a propaganda se voltaria contra os comunistas com o propósito de continuar a produção de guerra. Hoje a ‘’Guerra ao Terror’’ promove a intensificação dos investimentos na área militar e na produção de guerra contra os novos inimigos comuns - os terroristas. Retornaremos a seguir com as análises de COOK.
      O envolvimento direto dos EUA na guerra a partir de 1942 seria uma ‘’benção’’para as oligarquias financeiras conservadoras e para os militares. Thomas Wallner, líder do conselho industrial sulista defenderia o esforço total pela guerra sem a preocupação com as questões internas. Donald Nelson foi designado chefe do departamento de produção de guerra enquanto que o general Brehon B. Somervell seria chefe dos serviços de fornecimento e encarregado da adjudicação dos contratos para as forças armadas, segurava os cordões da bolsa, fazia compras, concedia ou anulava contratos, dessa forma o verdadeiro controle e poder estava nas mãos do general e dos militares. Os gastos militares em 1943 superaram os gastos em um período de 1789 a 1917, sendo que alguns anos antes os militares não tinham munições nem para treino de tiros. Os militares passariam então a exigir tomadas de decisões. Em maio de 1944 a marinha cancelou o programa de aviões de caça nas duas fabricas da Bewister Corporation e nove mil funcionários foram demitidos, mas os funcionários ocuparam as fabricas exigindo a manutenção de seus empregos. Esse episódio provocaria uma tentativa de mudança no ritmo da produção industrial e Donald Nelson tentaria reconverter as pequenas empresas para a produção civil, mas seria impedido pela posição do general Somervell alegando que a redução na produção de obuses levaria ao maior combate corpo a corpo e a morte de mais soldados (COOK, 1964, p.53-60).
    O relatório de julho de 1944 que confirmaria que os EUA possuíam munições e equipamentos para pelo menos mais cinco anos de combate seria apropriado e suprimido pelos militares. A produção militar continuaria em nome do patriotismo e a idéia de reconversão das pequenas indústrias para a produção civil proposta por Nelson seria estrangulada. A reconversão seria retardada até que as grandes corporações pudessem entrar no mercado civil e proteger a sua supremacia ante aos pequenos. As oligarquias econômicas seriam protegidas as custa das empresas menores, a custa da mão de obra e a custa do consumidor, processo totalmente oposto a democracia. Os grandes magnatas das corporações e os militares estreitaram suas relações e essa união passaria a se tornar sem precedentes. Sem duvida os militares passaram a ter a sincera convicção de que poderiam controlar tudo melhor e mais eficiente do que os civis. A questão econômica é que o desemprego nos EUA se tornou nulo durante a guerra e que apenas em uma situação de economia de guerra isso se concretizaria. Sendo assim, com as reduções dos gastos militares provocaria uma queda na economia, sendo essa agora dependente de uma prosperidade que só se alcançaria pelo aumento dos gastos militares (COOK, 1964, p.60-64).
   No discurso de janeiro de 1944, Charles E. Wilson sugeriu uma aliança entre os militares e os homens de negócios numa ‘’economia permanente de guerra’’. Os industriais, sendo grandes negociantes, agiriam de forma a resguardar os seus interesses com o propósito de comprometimento com o bem estar nacional e se colocando como subservientes dos militares, tendo o congresso apenas que ‘’votar os fundos necessários’’. A legislatura a qual Hamilton confiara como travão aos militares e como garantia da conservação da democracia, se transformaria em um corpo inteiramente fútil, reduzido a mera função de ‘’votar os fundos necessários’’. Esses processos representariam a coroação final do estado militarista e a criação de um complexo militar industrial permanente, mas o ‘’casal de noivos’’, composto pelas indústrias de materiais bélicos e os militares, se manteriam graças a uma arma muito eficiente e ainda mais poderosa - a propaganda (COOK, 1964, p.65).
    Com a morte do presidente Franklin Roosevelt em 12 de abril de 1945, Harry S. Truman assumiria a presidência. Considerado inexperiente e um péssimo diplomata, seria influenciado diretamente pelo alto escalão militar ligados aos industriais conservadores, mas o mais grave era Truman ser um homem ousado e arrogante. Os militares levantariam a questão polaca no qual a URSS estaria construindo governos sobre sua influencia, sem levar em conta a importância que a polônia tinha para a segurança da Rússia, já que foram através do território polaco que a maioria das forças alemãs marcharam sobre á URSS alguns anos antes. O projeto dos militares sempre foi encontrar soluções militares para todos os problemas e em 23 de abril de 1945, o secretário de estado russo Molotov (pelo motivo envolvendo a questão polaca) seria recebido com frieza por Truman, iniciando as tensões que acabaria por eclodir, de forma gradativa, a guerra fria. A diplomacia seria posta de lado mais uma vez na utilização da bomba atômica sobre o Japão, sem avisar os aliados russos. Truman obedeceu à política do estado maior de não compartilhar os segredos atômicos com os russos gerando desconfiança e rivalidades (COOK, 1964, p.66-83).
    O relatório Franck de junho de 1945, em que cientistas ligados a construção da bomba sugeriram a demonstração a todos os governos do mundo dos poderes destrutivos da nova arma em uma ilha para que houvesse uma conscientização sobre os perigos de sua utilização, seria também suprimido pelos militares que não desejavam compartilhar os segredos da bomba com os russos, como se os EUA fossem os guardiões de um avanço tecnológico que dificilmente seria alcançado em curto prazo, o que se demonstrou totalmente o contrário. A bomba seria utilizada sem aviso contra os japoneses. O Japão, apesar de ter recebido um ultimato para a rendição em 26 de julho de 1945, não sabia da existência da bomba, e conheceria os terríveis efeitos devastadores de um ataque nuclear dias depois (COOK, 1964, p.112-115).
    No próximo texto vamos abordar os eventos que acabaram por iniciar o sistema de Guerra Fria lançando o mundo a uma era de medo e incertezas.  
Referências:
COOK, FRED.J. O Estado Militarista. Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro. 1964, p.37-148.
Foto: Posters da Segunda Guerra Mundial. Taringa.net, disponível em:  http://br.taringa.net/posts/imagens/15539/Posters-da-Segunda-Guerra-Mundial-%28EUA%29.html. Acesso em 15/02/2012.
 



domingo, 12 de fevereiro de 2012

A Ascensão do ''Estado Fortaleza''



Os EUA, atualmente, é um gigantesco complexo industrial militar. De acordo com o Instituto de Pesquisas da Paz de Estocomo – SIPRI, os EUA produz 60% das armas consumidas no mundo e responsável por 50% dos gastos militares no planeta anualmente. Os outros países que encabeçam a lista são China e Rússia, mas estão muito atrás. A Rússia possui um orçamento na área de defesa 10 vezes inferior ao dos EUA. No entanto, devo esclarecer que não temos a intenção de estabelecer um discurso ‘’panfletário“, muito pelo contrário, é necessário que se entenda que grande parte da oposição mais séria á política militarista dos EUA vem dos próprios estadunidenses. Se a homogeneização crassa, resultante da militarização, foi utilizada com o êxito no país para o controle do dissenso interno o que, para ser mais preciso, resulta no controle da classe trabalhadora, essa mesma homogeneização não foi, e não é, suficiente para impedir oposições ou manifestações contrárias a essa política. A bela imagem acima apresenta a estudante estadunidense Jan Rose Kasmir em outubro de 1967, fotografada pelo fotográfo francês Marc Riboud, em manifestação contra a guerra do Vietnã. As manifestações populares foram fundamentais para o fim daquele conflito. Atualmente, existem movimentos pacifistas atuando nos EUA e esses movimentos reúnem artistas, intelectuais e parte considerável da população mais esclarecida. No entanto, nos EUA predomina um histórico de educação conservadora. Essas deficiências estruturais estão associadas á uma poderosa engrenagem de propaganda militar estabelecendo uma relação cultural com a de honra e dignidade com a guerra profundamente enraizada na sociedade estadunidense. Esse fenômeno vamos estudar em outro texto. A realidade atual dos EUA foi construída historicamente, e as transformações que possibilitou a supremacia dos militares na política dos EUA será o nosso objetivo de estudo.    

    Nesse texto vamos historizar sobre o crescimento do militarismo nos EUA de acordo com um polêmico trabalho histórico investigativo, e de denúncia, produzido, nos anos de 1960, pelo jornalista e historiador estadunidense Fred. J. Cook. Esse estudo resultou na publicação do livro ‘’O Estado de Guerra’’ nos EUA, e publicado no Brasil com o título de ‘’O Estado Militarista’’(1964) no período de auge da Guerra Fria. Ao melhor entendimento vamos dividir o texto em partes. Nessa primeira parte vamos abordar o período da história dos EUA entre 1787 a 1942 entre a elaboração da constituição no país e a entrada dos EUA na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Objetivamos o entendimento das relações estabelecidas entre a sociedade civil e os militares e como isso contribuiu para o país se transformar em um gigantesco e perigoso ‘’estado fortaleza’’. No inicio dos EUA como nação soberana, apesar do caráter expansionista que resultaria na conquista de territórios dos indígenas, mexicanos, espanhóis e franceses, de forma conflituosa ou por compra forçada ou não, existia uma desconfiança dos políticos quanto aos militares, segundo as análises de Cook. 
   Em 1787, na elaboração da primeira constituição dos EUA, Patrick Henry, um dos idealizadores, se opôs a idéia da criação de um exército permanente o que, segundo o político, representaria uma ameaça à liberdade e o risco de uma tirania militar pela sua influência. Henry defendia assim a formação de um exército apenas em ocasião de guerra. George Manson, outro idealizador da constituição, defendia que o exército deveria estar totalmente subordinado á um poder civil alegando que os militares eram uma força que se não fosse controlada acabaria por minar a democracia. Em 1792, James Madison destacaria a conseqüência de um alto ônus para o povo se houvesse um exército permanente. Até 1809 se conceberia a idéia de manter um exército dentro dos limites estabelecidos. Alexandre Hamilton, um dos políticos mais conservadores, defenderia a posição de um controle total do legislativo sobre a força militar não sendo autorizado ao executivo a formação de um exército e também estabelecendo um limite de verbas para os militares que não se prolongasse por mais de dois anos. Segundo as concepções defendidas por Hamilton, se o militarismo se elevasse ao estado civil, a população passaria a considerar os militares não como seus protetores, mas sim como seus superiores e estariam sujeitos as usurpações do poder militar, considerando isso um desastre para a democracia (COOK, 1964, p.37-42).
  A postura política dos EUA de 1812 até o final da primeira guerra mundial quanto à questão militar estava submetida sob essas convicções e as suas forças militares seriam compostas por milícias com poucos oficiais. No caso de guerra ocorria o recrutamento de voluntários e, mesmo durante a guerra civil e a guerra hispano-americana, as forças oficiais não ultrapassavam os vinte e cinco mil homens, sendo reduzidos drasticamente os gastos militares após o conflito. Dessa forma até 1900 apenas três dos trinta e cinco oficiais do exército mais importantes eram ligados aos negócios. A marinha era um clube social onde apenas um almirante se dedicava aos negócios. Após a primeira guerra mundial, a economia e os negócios não estavam acorrentados aos interesses dos contratos militares, mas várias vezes o exército tentou apoderar-se do poder inclusive tentando impor um serviço militar obrigatório, não aceito pelo congresso. O exército dos EUA em 1919 seria reduzido para meros trezentos e cinqüenta e quatro mil e trezentos e sessenta e seis homens. Em 1920, o exército conseguiria o apoio de membros do congresso e no Ato de Defesa Nacional, conseguiram então superar parte da autoridade do secretario de guerra Woodrow Wilson, sendo autorizados a apresentar seus casos diretamente ao congresso sem o controle de um civil. Outra ação anterior no ano de 1916, conseguiram estabelecer o serviço militar nas escolas e faculdades de ensino superior nos dois primeiros anos (COOK, 1964, p.43-45).
    Nos vinte próximos anos seguiria uma verdadeira insipidez e frustração para os militares, não se envolvendo politicamente em nenhuma ocasião. No entanto em uma sociedade onde prevalecia o deus da iniciativa privada, a crise de 1929 seria um verdadeiro desastre e deixaria claro que seria ‘’necessária’’ uma maior intervenção do estado na economia e, nesse contexto, ascenderia ao poder o democrata Franklin Roosevelt. Roosevelt concentraria seus esforços nas questões sociais. Implementou o seguro social para os trabalhadores e a jornada de quarenta horas, o que enfureceria as classes industriais e financeiras pela redução de seus lucros. Em 1938, com as ameaças do Nazi - Facismo e a escalada militar do Japão, a política do governo Roosevelt a se direcionou para as questões militares externas. Os defensores da política do New Deal acreditavam nas ameaças de uma economia militar, mas com a eclosão da guerra o presidente Roosevelt seria obrigado a se aproximar dos grandes industriais e donos das finanças a quem ele desafiara no objetivo de se voltar a uma produção de guerra. A orientação do governo passaria a ser militar e as grandes corporações seriam beneficiadas pela produção de tal forma que em 1941 às cinqüenta e seis maiores indústrias detinham setenta e cinco por cento de todos os dólares dos contratos de guerra (COOK, 1964, p.45-52).
    No próximo texto, vamos analisar os eventos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial até o seu término, e como isso acabou por concretizar uma aliança entre os industriais e os militares para dominar a economia e a política dos EUA, resultando no estabelecimento do complexo industrial militar.
Referências:
COOK, FRED.J. O Estado Militarista. O crescimento do militarismo. Editora Civilização Brasileira S.A. Rio de Janeiro. 1964, p.37-65.
SIPRI YEARBOOK 2011, Instituto internacional de pesquisas da paz de Estocolmo. Disponível em WWW.SIPRI.ORG
Foto: Fotos e Fatos. Maximagem, disponível em: http://maximagem2010.wordpress.com/2009/10/11/protesto-contra-a-guerra-do-vietna/. Acesso em 11/02/2012.


  

domingo, 22 de janeiro de 2012

O Ambíguo discurso dos EUA em defesa da liberdade e da democracia


  

   A imagem desse texto é um importante documento histórico registrando o encontro do então secretário de defesa dos EUA Donald Rumsfeld no governo Reagan (1981-1989) com o ditador iraquiano Saddam Hussein em 1983. Naquele contexto histórico, o Iraque foi até o final da década de 1980 um importante aliado dos EUA no Oriente Médio contra seu adversário político - o Irã. O governo iraquiano estava, nesse período, em guerra contra os iranianos. Os EUA, França, Reino Unido, a URSS e até o Brasil,  obtinham grandes somas de lucros com o fornecimento de armas para esse país. O Irã comprava armas das potências e, indiretamente, adquiriu armamentos até dos EUA no episódio que ficou conhecido como escândalo Irã-Contras (A venda secreta de armas para o Irã e o repasse dos lucros para os guerrilheiros contra-revolucionários que lutavam contra o governo sandinista na Nicarágua). E assim, enquanto o Iraque e o Irã se destruíam mutuamente, prevalecia um verdadeiro bazar de armas na região como ainda é atualmente.
      No início da década de 1990, o ditador Saddam Hussein passou a não corresponder mais aos interesses políticos e econômicos dos EUA. Saddam já não era mais colaborador e sim opositor, e passou a ser cassado até a sua deposição, prisão e execução. O mesmo Donald Rumsfeld foi o secretário de defesa do governo de George.W.Bush (2001-2009) e, nesse contexto, as relações entre o Iraque e os EUA estavam totalmente opostas. Rumsfeld foi um dos arquitetos da invasão do Iraque em 2003 sendo uma das propostas da invasão à possibilidade de levar democracia e liberdade ao Iraque, e acabar com uma ditadura tirana e corrupta que oprimia a população iraquiana. Mas o Iraque não foi aliado dos EUA nos anos de 1980? O Iraque era democrático naquele período? Evidentemente que não. Sabemos, também, que, a Arábia Saudita, o Kuwait, o Barein, os Emirados Árabes Unidos, entre outros, não são democráticos, mas são aliados dos EUA na atualidade.
   Acusar governos ditatoriais pela falta de democracia e, ao mesmo tempo, apoiar governos ditatoriais e antidemocráticos faz parte do caráter ambíguo da política estadunidense. O que interessa aos EUA é ter governos colaboradores não importando se democráticos ou não. Isso demonstra a característica conservadora que persiste na política dos EUA historicamente, e o atual governo de Barack Obama mantém a mesma postura política no cenário internacional. A invasão do Iraque foi uma dos conflitos mais brutais da história recente, nele foi testado e empregado os mais modernos e avançados equipamentos e artefatos convencionais de destruição e morte existentes. Para o melhor entendimento da utilização do discurso em favor da democracia e seu caráter ambíguo, vou apresentar um pequeno artigo que tive participação na sua produção juntamente com meu orientador o professor Francisco das Chagas Nascimento Junior, doutorando em Geografia pela Universidade do Estado de São Paulo – UNESP. Esse texto foi publicado no jornal A Tribuna Piracicabana, edição 9.690, em 20 de setembro de 2011 :
    ‘’De acordo com o dicionário da língua portuguesa Houaiss, o termo ambíguo é empregado para designar aquilo que tem (ou pode ter) diferentes sentidos; refere-se a algo que desperta dúvidas, incertezas, que admite interpretações diversas e até contrárias. Ao considerarmos essa acepção podemos admitir que um ente qualquer, seja uma pessoa, empresa ou mesmo um estado pode ter comportamentos que permitam duas ou mais interpretações sem que, no entanto, essa ambigüidade possa representar a existência de incoerências e contradições internas ao ser. No âmbito da política nacional e, especialmente, na esfera das relações internacionais, é comum observarmos a elaboração de discursos, que, na prática, se opõem aos comportamentos rotineiros dos próprios agentes que o proferiram. Aliás, não é estranho observarmos as grandes potências de nosso tempo defender valores e princípios considerados universais, como a liberdade individual e a igualdade entre os povos, mas freqüentemente negar alguns desses princípios para defender seus interesses particulares na esfera internacional.
    Hoje, o mundo assiste atônito o ganhador do premio Nobel da paz de 2009, o presidente dos EUA, Barack Obama, continuar a mesma política opressiva e intervencionista de ‘’Guerra ao Terror’’ concebida pelo seu antecessor, George.W. Bush. Defendendo a legitimidade das ações estadunidenses, o presidente comemorou o assassinato do ex-líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, ocorrida em dois de maio de 2011 – uma ação realizada unilateralmente, sem qualquer consentimento prévio do governo paquistanês. A aprovação pelo governo e pela sociedade estadunidense da política de ‘’Guerra ao Terror’’ logo após os históricos atentados de 11/09/2011, foi um evento que exacerbou a ambigüidade do discurso estadunidense em defesa da liberdade e da democracia. A suspensão, mesmo que provisória, de direitos civis, o cerceamento das liberdades individuais de suspeitos de associação com o terrorismo, a autorização concebida pelo congresso estadunidense as forças armadas para que essa pudesse combater grupos terroristas em qualquer lugar do mundo, mostrou mesmo o caráter autoritário dessa potência no plano internacional, negando valores como a liberdade e a democracia, reiteradamente evocada como símbolos daquela sociedade.
   Aliás, desde a instauração da chamada ‘’Guerra ao Terror’’ vemos ações militares estadunidenses serem justificadas como um meio necessário para garantir a segurança dos seus cidadãos e assegurar os direitos a ‘’liberdade e a democracia’’ daqueles que vivem em países considerados, pelo governo estadunidense, ‘’convenientes ou apoiadores’’ dos grupos terroristas. Trata-se ambiguamente de recorrer a justificativa de defender ‘’valores universais’’ como forma de legitimar ideologicamente ações que são, em seu cerne, tirânicas, opressivas e antidemocráticas, porque são cerceadoras das liberdades de escolhas dos indivíduos e impositivas de uma ordem política estabelecida de ‘’cima para baixo’’, como é o caso da política intervencionalista estadunidense de guerra mundial ao terror. Entretanto, como nos lembra o historiador Eric Hobsbawm (2007), a democracia construída com justiça é popular, nunca deve ser disseminada pela imposição. A idéia de que esse sistema pode solucionar os dilemas sociais do presente e que pode trazer a paz, em vez de criar a desordem é ainda perigosa, pois pode camuflar todo o tipo de atrocidades cometidas por dirigentes que alegam agir representando a vontade de toda população.
    Em um breve olhar para a história recente das relações internacionais vemos ainda que os EUA já se associaram diversas vezes a regimes despóticos de acordo com seus interesses geopolíticos e geoeconômicos. Alguns ditadores árabes são (ou já foram) apoiados pelo governo dos EUA. A começar pelas monarquias que por décadas governam os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Kuwait e o Barein, sem esquecermos dos governos recente depostos, do Egito, da Tunísia, alem do antigo parceiro, que depois se tornou um dos maiores inimigos dos EUA, o iraquiano Saddam Hussein. Todos esses governos já mantiveram acordos políticos e econômicos com a potência estadunidense e, inclusive, fizeram destas parcerias importantes trunfos para que pudessem se conservar no poder. Reiteradamente citada como um exemplo de sociedade livre e democrática, os EUA é também um caso emblemático de ser um estado que guarda um caráter ambíguo entre o discurso oficial disseminado e suas ações efetivas no plano internacional. A defesa de valores considerados irrevogáveis para a sociedade estadunidense aparentemente se opõe a forma despótica com que este estado age no plano internacional, defendendo a todo custo e por vezes impondo suas vontades, se necessário através do uso da força militar e apoiando governos tirânicos em várias partes do mundo. Contudo, a ambigüidade do discurso estadunidense não revela qualquer incoerência ou contradição interna a esta sociedade, visto que a defesa dos interesses nacionais é o objetivo último das ações que aquele estado busca promover’’
Referências;
HOBSBAWM, ERIC. Globalização, Democracia e Terrorismo. A disseminação da democracia. Editora Companhia das Letras. São Paulo. 2010. p.116-120.
A Tribuna Piracicabana. Edição 9.960. pag. A-5. 20/09/2011.
Foto: Donald Rumsfeld. Wikipedia, disponível em:  http://en.wikipedia.org/wiki/Donald_Rumsfeld. Acesso em: 20/01/2012.
  




domingo, 15 de janeiro de 2012

Guerra aos mais fracos e vulneráveis


''A guerra sempre encontra um caminho''. Bertolt Brecht




    A imagem acima mostra a realidade cotidiana que marcou o envolvimento militar dos EUA no Iraque desde sua invasão  a partir de março de 2003 até dezembro de 2011 respectivamente. A relação conturbada entre as forças armadas estadunidenses e a população local acirrou o conflito desencadeando uma violência sem limites. O resultado dessa guerra é desastroso, e ainda é incerto o futuro político do Iraque com a saída das tropas dos EUA. O desequilíbrio de forças foi uma característica desse conflito e as razões para ele ter sido deflagrado são várias, envolvem interesses estratégicos e econômicos estatais, e das grandes corporações, e o objetivo tático dos EUA de derrubar um ditador inescrupuloso e não confiável. Mas há ainda outro fator. O período da chamada Guerra Fria (1945-1991) foi marcado pelo confronto ideológico entre os EUA, e seu bloco capitalista de um lado, e a URSS, com seu bloco socialista de outro, sistematizando uma nova forma de guerra. A influência desse período permaneceu nas características dos conflitos atuais. O intelectual estadunidense Noam Chomsky em seu texto Armas Estratégicas, Guerra Fria e Terceiro Mundo (1985), definiu a Guerra Fria como um sistema altamente funcional para as duas superpotências envolvidas. Dentro da sistemática de cada bloco ocorria o pretexto ideológico de se envolver, onde quer que se achasse necessário, para se defender da ameaça do bloco adversário. As superpotências não podiam se enfrentar em uma guerra direta, pois isso resultaria na destruição total de ambas e a extinção da espécie humana. No entanto, as superpotências passaram a travar outro tipo de guerra na periferia do planeta. O poderio bélico, de ambos os lados, permitiu o controle do dissenso interno e serviu de arcabouço para o uso da força, para proteger seus domínios, contra qualquer tentativa de independência no interior dos blocos.
    Nesse período, a guerra passou a ser combatida com novos tipos de engenhos táticos como helicópteros, napalm, forças de rápido deslocamento e, se possível, armas nucleares táticas. A guerra passa a ser direcionada as áreas mais pobres do planeta contra povos que não podem reagir a agressão à altura. Sob a rubrica do sistema de Guerra Fria essas guerras foram conduzidas em muito maior proporção pelos EUA. As guerras atuais acompanham esse mesmo sistema, ou seja, a guerra direcionada aos mais fracos e vulneráveis. A chamada Guerra do Golfo (1991) foi considerada uma das guerras mais unilaterais da história contemporânea. Opôs de um lado o Iraque, com um estoque considerável de armas já ultrapassadas e superadas pelas potências ocidentais, e de outro lado os EUA e seus aliados ocidentais, armados com os engenhos bélicos mais tecnologicamente avançados do período. O resultado daquele conflito foi à formidável eficiência apresentada pelos novos armamentos. Entre os maiores destaques foram os mísseis de precisão cirúrgicas e os aviões de combate com tecnologia Stealth, invisíveis ao radar. O Iraque sofreu uma fragorosa derrota. No entanto, antes mesmo do desfecho final do conflito, as medidas para enfraquecer a capacidade bélica e econômica do país já estavam bem avançadas. Bloqueios comerciais e bélicos ao Iraque foram empregados enfraquecendo a sua capacidade de resistir por um longo período. A alienação dos sistemas de armas ainda vamos analisar em outro texto, mas era certa a derrota do Iraque, pois a superioridade bélica dos seus inimigos era estrondosa pela disparidade e dependência tecnológica.
     Como já sabemos, a derrubada do ditador Saddam Hussein não ocorreu naquele período, mas, nos anos seguintes, o que se seguiu foi um completo embargo que fragilizou a economia do país e enfraqueceu ainda mais a sua capacidade de defesa. Antes da invasão do Iraque em 20 de março de 2003, o país sofria ataques aéreos diários dos EUA e da Grã-Bretanha, principalmente dentro da zona de exclusão aérea imposta ao país para, supostamente, proteger os curdos ao norte e os xiitas ao sul contra ataques aéreos do governo iraquiano. A capacidade de defesa do Iraque estava tão frágil que o país pouco conseguiu fazer contra os invasores e foi rapidamente derrotado. Em 1º de maio de 2003 o então presidente Jorge.W.Bush anunciou o fim das operações militares no país e a dissolução do partido Baath, o partido do deposto ditador Sadam Hussein. O que se seguiu adiante foi um verdadeiro lodaçal, mas demonstra que o sistema da Guerra Fria permaneceu, ou seja, a guerra contra os fracos e vulneráveis. Nessa lógica, não surpreende a preocupação dos EUA com o possível desenvolvimento militar do Irã. O sistema de guerra direcionada aos fracos seria abalado com o fortalecimento militar iraniano, pois o país parece ter desenvolvido sistemas de armas independentes que, embora sejam insuficientes para deter o poderio bélico dos EUA, podem dificultar as coisas em uma área tão estratégica para os interesses do ocidente. No entanto, como analisaremos em outro texto, ocorrem benefícios com as tensões com o Irã, principalmente no que se refere à venda de armas e os investimentos bélicos. Mas se o fortalecimento do Irã continuar, e se elevar a um nível muito perigoso, a estratégia poderá mudar, pois, como já mencionamos, a guerra é direcionada contra povos que não podem reagir a altura sendo possível o surgimento de uma nova Guerra Fria contra o país. Os ataques já começaram com os bloqueios comerciais e o sistema financeiro do país, mas, devido ao conservadorismo da política ocidental, uma catastrófica ação militar ainda não esta descartada. Como afirma Noam Chomsky, a Guerra Fria consolidou um sistema de massacre, destruição e opressão que se estendeu e se adaptou, militarmente, para a periferia do planeta e suas características permanecem no período atual mesmo após 20 anos do seu final.

Palavras Chaves: Guerra Fria, Vulnerável, Tecnologia, Invasão, Reação.

 Referências:
CHOMSKY, NOAM. Armas Estratégicas, Guerra Fria e Terceiro Mundo. Coletânia de textos Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense. São Paulo. 1985. p.188-205.
Foto: Economia de Guerra. Camiseta de Pet, disponível em: http://www.camisetadepet.com.br/blog/2011/08/fenomeno-el-nino-duplica-risco-de-guerra-civil-diz-estudo/economia-de-guerra-2/. Acesso em 12/01/2012.


segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Opressão e Resistência





       Em minha primeira postagem apresento essa imagem que se tornou comum nos atuais conflitos. Esses conflitos são marcados pelo total desequilíbrio e a desproporcionalidade de forças.Todos os dias, muitos palestinos enfrentam as forças israelenses com os parcos recursos disponíveis, inclusive paus e pedras. Mas porque isso ocorre? Porque os palestinos ousam ainda resistir contra o poderio bélico de Israel? As forças armadas israelenses são consideradas uma das maiores e mais eficientes máquinas de guerra do mundo. O arsenal nuclear de Israel, de aproximadamente 200 ogivas nucleares, é grande o suficiente para aniquilar todos os povos árabes vizinhos, mas, mesmo assim, palestinos pegam em armas para combater Israel, o que inclui paus e pedras. O intelectual palestino Edward. W. Said, em entrevista a David Barsamian ''Cultura e Resistência'' (2006), apresenta uma abordagem sobre a real condição dos palestinos sendo um povo com 75% de sua população sobrevivendo com menos de 2 dólares por dia. As condições impostas aos palestinos facilitam o ímpeto a resistência a qualquer custo sendo um dos povos mais oprimidos da atualidade. Evidentemente, não são todos os israelenses que apoiam a postura política do governo conservador de seu país quanto a questão palestina. Muitos israelenses são favoráveis a paz e apoiam a criação de um estado palestino e a causa palestina. O direito a paz efetiva devem abranger todos os povos, incluindo israelenses e palestinos.
       Nesse pequeno texto, quero levantar mais um questionamento: é possível as armas aniquilar a vontade de resistência de um povo? Considero ser possível destruir uma resistência armada de uma população, mas não á sua vontade de resistir, essa pode ser inabalável, principalmente, se o que resta a esse povo for a resistência. A resistência trás esperança. Assim como os judeus resistiram contra a opressão dos nazistas no levante do Gueto de Varsóvia, com armas improvisadas em 1943, talvez para muitos palestinos só resta essa alternativa atualmente. Deve se criar outra alternativa para eles. Medidas para  melhorar as condições de vida dos povos e diminuir a opressão pelas armas historicamente são mais eficientes e positivas para a paz. Sem dúvida essa é uma questão polêmica e esse é o objetivo nesse espaço, pois estamos em mundo onde um trilhão e quinhentos bilhões de dólares estão sendo gastos por ano no setor militar sendo esses recursos suficientes para erradicar a fome, o analfabetismo e o déficit habitacional mundial em poucos anos se aplicados ao setor civil. Na história humana as armas podem matar e oprimir, mas não podem destruir idéias, ímpetos e vontades de um povo, pois uma resistência, a todo e a qualquer custo, é uma forma de adquirir esperança no futuro e nenhuma máquina de guerra no mundo é capaz de conter.
Referências:
SAID. EDWARD.W. Cultura e Resistência.Uma perspectiva palestina sobre o conflito com Israel. Editora Ediouro. Rio de Janeiro. 2006.p- 133-157.