segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Valsa com Bashir e a Sombra de Sabra e Chatila




‘’Tudo o que Israel tem feito nos últimos cinqüenta anos não é, claro, conseguir sua segurança’’.Edward.W.Said

   Nos textos anteriores levantamos alguns questionamentos sobre a tecnologia militar, a supremacia da maquina de guerra e o, conseqüente, declínio da política. As relações do poder militar tecnológico com o sistema global neoliberal atual ainda discutiremos em outros textos. No texto desse mês, não poderia deixar de relembrar um episodio trágico e brutal ocorrido em 1982 para levantarmos algumas questões sobre a situação atual dos israelenses e palestinos. No dia 16 de setembro completará os trinta anos dos massacres ocorridos nos campos de refugiados palestinos de Sabra e Chatila em Beirute, capital do Líbano, durante a invasão e a ocupação israelense do país naquele ano. Há muito tempo esquecido pela comunidade internacional, esse massacre foi considerado um ato de genocídio, mas ninguém foi julgado ou condenado por nenhum tribunal internacional. Em 2009 coube ao israelense Ari Folman, diretor e produtor de filmes, trazer a tona as lembranças dos terríveis massacres de civis palestinos ocorridos naquele conflito. Ex- combatente israelense nessa guerra, Folman produziu o filme documentário em animação ‘’Valsa com Bashir’’ que relata a invasão do Líbano do ponto de vista de vários israelenses participantes do conflito. O filme é um importante documento histórico, e em certo momento o israelense faz uma relação dos massacres dos palestinos, ocorridos nos campos, com o massacre dos judeus pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). O diretor israelense levanta uma reflexão moral sobre os eventos ocorridos naquele ano de 1982 os quais, na época, provocaram forte indignação até entre boa parte da população israelense.
    Parte da história da guerra é relatada no filme documentário. Os fatos narrados terminam na consumação do massacre com fortes cenas reais. No dia 16 de setembro de 1982, os milicianos cristãos da Falange (grupo guerrilheiro que combatiam a guerrilha muçulmana), aliados de Israel, invadiram os campos de refugiados palestinos para, supostamente, procurar terroristas que alegavam estar escondidos no local. A área estava sobre o controle das forças israelenses e permitiram a invasão dos milicianos mesmo não havendo mais combatentes palestinos nos campos e somente a população civil. O que se seguiu foi um episodio cruel e macabro. Durante mais de 50 horas, os milicianos barbarizaram os civis palestinos indiscriminadamente. Relatos dos sobreviventes e de jornalistas que conseguiram, posteriormente, adentrar nos campos dão conta do horror. As execuções sumárias foram acompanhadas de mutilações, decapitações e estupros. Homens tiveram ferimentos em forma de cruz cravados no abdômen, crianças, idosos e até bebês foram mortos a tiros ou a facadas. O numero de palestinos mortos nunca foi totalmente contabilizado, mas podem ter ultrapassado os três mil e quinhentos.
     A barbárie ocorreu como consumação de um plano de vingança pelo assassinato do líder dos cristãos Bashir Gemayel, ocorrido cinco dias antes. Os milicianos atribuíram as suspeitas (Nunca confirmada) a terroristas palestinos. A omissão das forças israelenses diante das atrocidades ficou evidente, inclusive, mantiveram os campos iluminados a noite por artefatos luminosos para os milicianos completar seus ‘’trabalhos’’ e tinham ampla visão do que ocorria na área. Os comandantes israelenses sabiam da ocorrência de um massacre, mas nada fizeram para evitar a barbárie denunciado no próprio documentário produzido por Folman. Os eventos ocorridos provocariam a demissão do ministro da defesa Ariel Sharon considerado o arquiteto da invasão do Líbano e comandante das forças israelenses estacionadas em Beirute. Ninguém foi condenado ou mesmo julgado por crimes contra a humanidade e a tragédia permaneceu impune (MONTENEGRO, 2012). Os penalizados por essa desastrosa invasão (Além de potencializar o sofrimento dos palestinos) seria a própria sociedade civil israelense.

    Israel é um país que, ao longo de sua historia, desenvolveu uma formidável maquina de guerra possuindo a melhor força aérea do mundo, um exército poderoso e moderno além de um arsenal de armas nucleares de, aproximadamente, 200 ogivas. A invasão do Líbano alcançou seu principal objetivo que era aniquilar ou expulsar a Organização para Libertação da Palestina – OLP do Líbano, mas para atingir seu outro objetivo de instalar um governo cristão no país, com o apoio dos EUA, culminou em completo fracasso. Ao utilizar o recurso militar contra a OLP, Israel deixou de lado a opção diplomática sendo retomada em 1993 com o acordo de paz de Oslo. O acordo acarretaria no reconhecimento mútuo entre ambos a OLP e Israel, e a concessão de autonomia das autoridades palestinas sobre a faixa de gaza e parte da Cisjordânia. Como se observa, os desastres e massacres em Sabra e Chatila poderiam ter sido evitados pela diplomacia no lugar da opção militar. Apesar do fracasso prático desse acordo ele significou, ao menos, a presença de uma possibilidade de conciliação entre os dois povos (BARSAMIAN, SAID, 2006, 227p).
   Essa conciliação, ainda possível, é defendida pelo intelectual palestino Edward. W. Said. Said vai além de defender a ideia da formação do Estado palestino, ele propõe um estado bi-nacional através de uma conciliação no modelo que acabou com o regime do Apartheid na África do Sul. Essa realidade parece distante na medida em que Israel, através de seus dirigentes conservadores, ainda deposita a confiança na sua poderosa máquina de guerra. Segundo Said, Israel é um estado suicida seguindo nessa mesma trajetória política. A invasão do Líbano em 1982, e a expulsão da OLP, provocaram a união entre milícias muçulmanas xiitas que estavam desorganizadas. Naquele mesmo ano surge o Hezbollah e, segundo o seu líder atual Hassan Nasrallah, dificilmente o grupo teria surgido se não fosse à invasão israelense. O Hezbollah inaugurou a tática poderosa do emprego dos ‘’voluntários da morte’’, mais conhecidos como Homens Bombas, na região. Após explodir as forças dos EUA e da França, que estavam instaladas no país sob a bandeira das Nações Unidas em 1983 e provocar suas retiradas, o grupo passou a combater e a tornar insustentável a presença das forças israelenses no Líbano diante da opinião publica do país. Israel acabou por se retirar para o sul do país em 1985, e completou sua retirada total do Líbano em 2000 (BARSAMIAN, SAID, 2006, 227p).
  Atualmente é evidente que, após os resultados da guerra entre Israel e o Hezbollah em 2006, Israel pagara um preço muito alto por uma guerra ou invasão em larga escala do Líbano. O Hezbollah multiplicou seus contingentes e estoques de mísseis e armas próximos a fronteira de Israel, e existe o temor considerável que o grupo se arme com um arsenal de armas ainda mais poderosas (Como armas químicas e biológicas) podendo ser utilizadas contra Israel em um conflito futuro. Quanto aos palestinos, Israel ainda insiste em mante-los sobre estado de sítio, mas por quanto tempo? Segundo Said, em 2030 haverá o dobro de árabes do que judeus no Estado de Israel. Sendo assim, seria muito improvável que o pais poderia continuar a manter essa política baseada no uso da força de acordo com o modelo do Apartheid na África do Sul. Nem mesmo naquele país sul africano, com um território vinte vezes maior do que Israel, isso foi possível. Não há outra opção para Israel a não ser negociar a paz real, pois não se pode impor uma paz do mais forte sobre o mais fraco por muito tempo. Agregado a isso, se utiliza de um sistema semelhante ao empregado pelas elites do nordeste brasileiro para o domínio da população civil – a pobreza (70% dos palestinos sobrevivem com o equivalente a dois dólares por dia). A situação de miséria constitui o maior obstáculo para qualquer possibilidade de paz, e estimulam muitos palestinos a resistir com os meios que possuem como única opção possível (BARSAMIAN, SAID, 2006, 227p).
   Quanto ao massacre de Sabra e Chatila, a história demonstra que, mesmo permanecendo impune, as conseqüências dessas ações estão hoje presentes despertando reflexões sobre os direcionamentos políticos possíveis para o futuro. O israelense Ari Folman além de nos apresentar uma reflexão moral sobre os massacres, mostra a guerra do Líbano em todo o seu horror. Valsa com Bashir é um filme diferente de outros, pois, segundo Folman, mostra a guerra em uma dimensão real diferente de muitos filmes de guerra dos EUA, onde se mostra os horrores da guerra, mas que todos acabam considerando o soldado do filme legal, companheiro, honrado e herói e não existe nada disso numa guerra. Na guerra existe o horror e nada mais. Quanto a Israel, o país existe como nação. Mesmo que muitos árabes não o reconheçam Israel existe, é uma realidade. É evidente que buscar o reconhecimento necessário para garantir a paz em Israel dependera de sua política e não de sua maquina de guerra. Os israelenses não podem continuar a entregar o seu futuro político nas mãos da truculência conservadora de líderes como Ariel Sharon. Mas o mais importante é reconhecer que muitos israelenses, como Folman, reconhecem que há outras possibilidades possíveis que não seja o flagelo da guerra. Como afirma Edward Said: ‘’Mais israelenses tem entendido que Israel, apesar de sua enorme força militar-econômica e poder político, esta mais sem segurança do que nunca’’ (BARSAMIAN, SAID, 2006, p.87).
  Mas qual é a solução? Sabemos que o Oriente Médio não esta reduzido a guerras e conflitos. Trata-se de uma região com enormes diversidades e riquezas culturais. As culturas árabes e judaicas são patrimônios da humanidade. Ambos os povos podem ser superiores as políticas belicosas disseminadas e exacerbadas pelos interesses do grande capital global e amparadas pela grande mídia. As perspectivas para a paz deve se direcionar a superação dessa política hostil que atrofia o desenvolvimento de toda a região. No entanto, Israel continua com sua atitude suicida, ou seja, cercado de inimigos e ameaçando ampliar as hostilidades com as ameaças de ataque ao Irã, mesmo com a escalada do conflito na Síria podendo desestabilizar e ampliar os riscos políticos na região. Suicida por que os inimigos de Israel já provaram estar dispostos a lutar até a morte. Mas Israel ainda tem chances de começar a construir a paz efetiva. Muitos israelenses pensam diferente e isso deve ser entendido por todos, mas é necessário uma mobilização popular para que as mudanças possam ocorrer em qualquer parte do mundo. Os israelenses podem decidir em continuar a viver em fortificações ou a trabalhar pela paz, antes que Israel pareça ser um lugar que se possa afirmar ser insuportável viver. 

 Referencias:
- BARSAMIAN, DAVID; SAID, EDWARD.W. Cultura e Resistência. Ed. Ediouro. Rio de janeiro, 2006, 227p. 
- Folha On Line. Carolina Montenegro. Massacre de palestinos no Líbano completa 30 anos sem punições.Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/mundo/1156808-massacre-de-palestinos-no-libano-completa-30-anos-sem-punicoes.shtml. Acesso em 21/09/2012.
 
- VALSA COM BASHIR (VALS IM BASHIR). Direção: Ari Folman. Produção: Serge Lalou, Ari Folman, Roman Paul, Yael Nahlieli, Gerhard Meixner. 2008. 90 min. Color. Trailler : http://www.youtube.com/watch?v=Ak_2NWhr_g4,
Fotos:
- Fime, documentário,  disponível em: http://blog.meiapalavra.com.br/2012/03/20/valsa-com-bashir-ari-folman-e-david-polonsky/. Acesso em 30/08/2012.
- Massacre.http://rebstein.wordpress.com/2007/09/16/per-non-dimenticare-sabra-e-chatila/. acesso em 30/08/2012.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A Herança da Irracionalidade Exterminista




       ‘’As armas e os sistemas de armas nunca são politicamente neutros.’’ Edward Thompson

   As abordagens dos principais estudiosos da questão bélica continuarão a ser apresentadas por mim nesse blog na forma de diálogos, pois considero ser de fundamental importância a comparação das opiniões que podem contribuir para o entendimento da crise bélica atual. Os textos dos autores são bastante atuais na medida que nos aprofundamos nas nossas investigações, pois o movimento da máquina de guerra mundial prossegue sem qualquer forma de oposição que possa significar alterações em suas estruturas. Os gastos militares prosseguem praticamente inalterados amparados pela incessante apologia ao recurso político militar. No momento em que escrevo esse texto ocorrem 42 guerras abertas no mundo além de trezentos e quarenta e cinco focos de conflito que podem desencadear em combates, segundo o Instituto para pesquisas da Paz de Estocolmo – SIPRI, (SIPRI, 2012).
   A economia permanente de guerra, como já estudamos, se consolidou com a tensão militar em constante ao ponto de submeter à tecnologia de ponta ao seu total controle. O desenvolvimento militar, desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), prosseguiu atraindo cada vez mais investimentos e a tecnologia da aniquilação passou a adquirir uma dimensão política impondo sua lógica irracional exterminista. A tecnologia militar direciona a humanidade a destruição total, pois esse é o seu movimento. A ciência do apocalipse se impulsionou impondo a sua própria política e o mundo passou a acumular artefatos de destruição de tal forma que seria suficiente para destruir dezenas de planetas como a terra. Os arsenais nucleares desenvolvidos pelos EUA e pela ex-URSS eram de 6500 em 1960, passando a 14200 em 1979 e chegaram a 24000 ogivas em 1985. Esse impulso ao exterminismo desafia a racionalidade gerando, dentro de si mesmo, um sistema de modernização e experimentação continua. Se por um lado a presença das armas inibiu um embate final, que levaria a extinção da humanidade, por outro lado ela significou a supremacia da máquina de guerra e de sua lógica irracional, além do direcionamento ao fracasso e a desmoralização da política internacional.
    Mas então a que se reduziu a política internacional? Para o historiador Edward Thompson, a própria política pode se direcionar a militarização: ‘’Os armamentos, certamente, são coisas. Seu incremento não é independente de decisões políticas. A política, ela mesma, pode ser militarizada: e as decisões sobre o armamentismo impõem hoje as escolhas políticas de amanhã. Os armamentos assim se revela, são também agentes políticos.’’'(THOMPSOM, p.24, 1985). Para o filósofo Paul Virilio, a máquina de guerra mundial eliminou a guerra política. Dessa forma, a guerra passa a ser conduzida na transpolítica, o que ele denomina como o começo do fim do político. Isso significa que diante da presença de uma gigantesca capacidade militar dissuasiva, o debate político se enfraquece e se esvazia, o que ocupa o seu lugar é a irracionalidade das armas e o caminho aberto para o Terrorismo de Estado. Ele mesmo, o Estado, passa a ser terrorista. A tecnologia bélica assim dita sua própria lei como agentes políticos. (VIRILIO, LOTRINGER, 1984, p.36).
    Observamos na atualidade que o poderio tecnológico militar permanece como alternativa política, e a estrutura da máquina de guerra se perpetua. Os debates políticos são insuficientes para evitar os conflitos e a própria concepção política baseada no diálogo, na dialética e na reflexão muitas vezes se torna impotente e inútil. O extraordinário poderio militar de várias nações os direcionam ao conflito e ao desprezo pela paz. Na realidade permanecem sobre a sombra da alternativa militar submetidos ao movimento da máquina de guerra consumidora de seus recursos. Como afirma Thompson, os sistemas de armas despreza a paz e a negociação tornando as opções políticas cada vez mais implausíveis. A continuidade de conflitos em diversas regiões do planeta demonstram que a tecnologia militar superior, de algum lado, alimenta a ilusão de vantagem e, na maioria das vezes, aniquila o próprio momento da política diminuindo as perspectivas para a paz efetiva entre os povos (THOMPSON, 1985, p.15-57).
     A herança do sistema exterminista continua predominante. Sua irracionalidade destrutiva permanece nos sistemas dissuasivos atuais. Aniquilando o momento da política, a sociedade atual insiste em conduzir as suas soluções políticas aos militares cujas racionalidades totais são da guerra. Assim, como os arsenais nucleares do passado, a máquina de guerra atual, altamente tecnológica, erode continua e constantemente a brecha onde se poderia utilizar alguma opção política. A ‘’Guerra ao Terror’’ dos EUA, as desastrosas invasões do Iraque e do Afeganistão, a perpetuação do conflito Árabe-Israelense e o empenho incessante das potências ocidentais em levar à Síria a uma trágica conflagração total, são alguns dos exemplos que podemos comparar, mas as conseqüências para a humanidade são ainda mais onerosas, pois significa o predomínio da racionalidade pelas armas em substituição a racionalidade política. Sendo assim, o militarismo mundial segue cada vez mais agressivo e a guerra passa a ser possível como resultado das políticas iniciadas pelas minorias irresponsáveis – as elites. A máquina de guerra mundial continua sendo a fonte de privilégios de uma minoria que detém uma riqueza estratosférica como os 1% mais ricos da população dos EUA, o que será estudado em um outro texto.

Referências:

THOMPSON, EDWARD. Notas Sobre o Exterminismo, o Estágio Final da Civilização. Coletânea de textos: Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense. São Paulo. 1985, p. 15-57.
VIRILO, PAUL; LOTRINGER, SYLVERE. Guerra Pura – A militarização do cotidiano. Editora Brasiliense. São Paulo, 1984. 158p.
SIPRI YEARBOOK 2011, Instituto internacional de pesquisas da paz de Estocolmo. Disponível em WWW.SIPRI.ORG
Foto: Teste nuclear com a bomba de Hidrogênio. disponível em: http://www.grupoescolar.com/pesquisa/armas-nucleares.html. Acesso em 01/08/2012.



   

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Culto a Ciência do Horror




   ‘’ Sempre a vimos como um instrumento civil, sequer cogitamos que a tecnologia de ponta é monopólio dos militares, a quem servem, mas, sobretudo, que a servem e cultuam’’. Laymert Garcia dos Santos


    Nos últimos textos apresentados nesse blog, levantei questionamentos sobre a relação entre o militarismo com os extraordinários avanços tecnológicos alcançados pela produção industrial bélica e suas conseqüências para a humanidade. Os estudiosos que se propuseram a denunciar a maquina de morte, que se esconde por tráz dos avanços tecnológicos, são categóricos ao afirmar que esse movimento representa um retrocesso econômico, político e social, um desastroso desperdício de recursos. O movimento dessa maquina de guerra mundial direcionou a sociedade civil a uma nova forma de colonialismo, o que será apresentado em outro texto. A tecnologia consiste em uma doutrina de dominação que, submetida ao controle militarista, produz os elementos necessários para a perpetuação da crise bélica. Em um momento que se assiste a desvalorização cada vez maior do proletário-trabalhador e do proletário-soldado, se observa os avanços crescentes do desenvolvimento tecnológico militar com o triunfo da produção da destruição automatizada.
   A tecnologia da destruição submeteu a tecnologia da produção industrial. Como já foi apresentado em outro texto, o desenvolvimento industrial atual depende dos avanços da tecnologia bélica, ou seja, a potencialidade da produção tecnológica de ponta esta voltada à aniquilação humana, a catástrofe, a barbárie total. Dessa forma, as guerras atuais se faz no embate e no conflito a nível tecnológico necessitando de constante desenvolvimento e aprimoramento para o seu maior fortalecimento. Quando citei que o desenvolvimento tecnológico militar subdesenvolve a sociedade civil, não é apenas uma relação econômica imposta pela lógica da divisão internacional do trabalho, representa uma realidade em que toda sociedade civil humana esta em posição de subdesenvolvimento para que o setor militar continue a se desenvolver constantemente (VIRILIO, LOTRINGER, 1984, p. 49-68).
   Segundo o filósofo francês Paul Virilio, a relação entre o militarismo com a tecnologia direcionou o investimento da economia política mundial na economia de guerra e, dessa forma, a guerra passa a ser conduzida não apenas na sua execução, mas também na sua preparação, o que Virilio considera como a ‘’Guerra Pura’’. A tecnologia da destruição passa a ser restrita as engrenagens do sistema da Guerra Pura, e se instaurou um verdadeiro culto ao desenvolvimento tecnológico militar. A sacralização da tecnologia prossegue se opondo aos demais avanços tecnológicos e, nesse culto, existem os seus sacerdotes executores - os militares. Prossegue assim a completa superioridade da tecnologia da destruição, como demonstrado nas guerras recentes onde se observou que a persuasão se faz com poder dissuasivo constantemente ampliado a níveis surpreendentes. Se outrora esse poder de dissuasão era representado pelos armamentos nucleares, ele então passou a ser ampliado a todos os níveis de armamentos (VIRILIO, LOTRINGER, 1984, p. 49-68).
      A precisão cirúrgica dos engenhos de alta tecnologia, composto de bombas e mísseis, que arrasaram a cidade de Bagdá durante a invasão do Iraque em março de 2003 demonstram que o desenvolvimento tecnológico segue impulsionado pelas condições de poder desencadear uma guerra e, ao mesmo tempo, de conduzi-la pelo poder da dissuasão potencialmente ampliado. O sistema de Guerra de preparação e de execução tem sua própria capacidade de ampliação e de desenvolvimento. Como já estudamos em outros textos, a conexão entre os industriais e os militares, e o suporte concedido pela democracia perversa, proporcionou a permanência dos investimentos na economia de guerra. Mesmo sendo um grande desperdício de recursos se faz necessário o não esgotamento dos recursos e que haja sempre recursos disponíveis. Como afirma Virilio : ‘’De um lado, trata-se de não esgotar os recursos; de outro, de não desenvolver a sociedade civil, porque essa estorva o desenvolvimento da sociedade militar, os meios de desencadear a guerra’’  (VIRILIO, LOTRINGER, 1984, p.58).
   O culto a tecnologia de ponta prossegue pelo monopólio do uso militar. Os sacerdotes desse culto, no entanto, se tornam também os inquisidores, aqueles que, periodicamente, voltam essa sacrossanta tecnologia para a destruição e a barbárie humana. Se outrora a guerra se dava pela política, pelos guerreiros e pelos seus ‘’aspectos românticos’’, com o advento das proezas da ciência e da técnica agora a guerra se desenvolve de uma forma que, segundo Karl Kraus, seu desfecho será decidido de fato numa espécie de competição entre os laboratórios e fábricas das diversas nações (VIRILIO, LOTRINGER, 1984). Essas palavras proféticas de Kraus, do início do século XX, são atuais, na forma que observamos as guerras de hoje, ocorrendo segundo os interesses das grandes corporações mundiais. Segundo dados do Instituto para Pesquisas da Paz de Estocolmo – SIPRI, a guerra do Iraque custou três trilhões de dólares, custo pago pela sociedade civil que padece pela falta de conhecimento sobre essas questões, sendo que a única forma de haver alguma mudança ainda é o esclarecimento a todos.
Referências:
VIRILO, PAUL; LOTRINGER, SYLVERE. Guerra Pura – A militarização do cotidiano. Editora Brasiliense. São Paulo, 1984. 158p.
SIPRI YEARBOOK 2011, Instituto internacional de pesquisas da paz de Estocolmo. Disponível em WWW.SIPRI.ORG
Foto: Bombardeio de Bagdá em Março de 2003. disponível em:  http://ricardocarelli.wordpress.com/2011/09/15/o-maniqueismo-estadunidense-quem-sao-o-bandidos-no-final-das-contas/. acesso em 11/07/12.


        


quarta-feira, 20 de junho de 2012

Tecnificação Contraditória




''Bem, leve-me à fabrica da morte e deixe-me aprender alguma coisa mais. Deve haver certa verdade atrás de toda essa terrível ironia''. Major Barbara

    Os assuntos referentes às análises do militarismo têm pouco espaço na mídia em geral e, no mundo atual, a existência de tropas armadas faz parte da própria estrutura social e política das nações. Em nenhum outro período da história humana a mobilização de forças militares foi tão intensa como na atualidade, nem mesmo na Roma antiga, onde a guerra era um sistema de avanço econômico inerente ao Estado, havia mobilização de tropas em tempos de paz. O Estado moderno constitui grandes contingentes militares em Estado de guerra permanente mesmo havendo, na maioria das vezes, remotas chances de hostilidades externas ou internas. Sem dúvida, o fenômeno da militarização do espaço é a característica predominante na sociedade atual. As próprias forças armadas se tornaram instituições que empregam enormes contingentes em seus quadros operacionais sendo esses empregos cobiçados pelos jovens trabalhadores. Esses temas serão analisados em outros textos, pois grande maioria dos indivíduos não compreendem a força e o grau de militarização a que estão submetidos. É necessário um maior trabalho de esclarecimento para que as pessoas possam compreender a realidade. O custo enorme desse sistema contribui para as enormes disparidades econômicas existentes, todos custeados pela sociedade civil.
  Existem inúmeros defensores dos investimentos militares, não apenas nos países desenvolvidos, mas também nos países subdesenvolvidos. Sem duvida, as demonstrações operacionais dos avançados armamentos causam um impacto considerável na opinião publica em todo o mundo incluindo as populações dos países pobres, dado a formidável sofisticação continua do poderio bélico das grandes potências servindo como vitrine para seus produtos. Muitos países passam a cobiçar os sofisticados engenhos. Os EUA se orgulham de possuir um grande poderio tecnológico militar praticamente inatingível, mesmo em longo prazo, por outras nações. Todos esses avanços tecnológicos demonstrados a exaustão pela indústria do entretenimento, e pela mídia, acabam por associar esses fenômenos da ciência moderna á superioridade conquistada pelas pesquisas bélicas com grandes benefícios para o conhecimento humano. No entanto, ocorrem profundas contradições que desmascaram o sistema econômico dirigido pelo militarismo e o associa não com o progresso continuo, mas sim a um sistema parasita que precisa ser superado pela humanidade.
   Segundo o geógrafo brasileiro José Willian Vesentini, os dispendiosos recursos destinados ao setor militar todo ano representa um desperdício tão desastroso que se fosse empregado no setor civil poderia erradicar a fome e o analfabetismo em todo o mundo. Milhares de escolas, universidades, hospitais poderiam ser construídos além de habitações suficientes para a resolução do déficit habitacional mundial em poucos anos. Os enormes recursos destinados a militarização levou ao agravamento dos problemas sociais devido ao dreno dos recursos que poderiam ser destinados ao setor civil. A tecnologia militar, como mencionada no texto anterior, é extremamente cara, pois os técnicos e cientistas mais bem pagos atuam na área militar. O contínuo desenvolvimento do setor militar ocorre sob um véu de segredo restrito ao controle da maquina estatal e, conseqüentemente, a tecnologia alcançada também. A sociedade civil acaba ficando fora do controle dessa tecnologia e paga muito caro comprometendo o seu próprio desenvolvimento, ou seja, enquanto um setor se desenvolve outro se atrofia. Isso contribui para explicar porque mesmo sendo um período de forte crise econômica e recessão, como o atual, os gastos militares dos países praticamente não se alterou e, em alguns casos, até aumentou. O desenvolvimento tecnológico do setor militar contribui para o esgotamento econômico, pois, periodicamente, ele se volta contra a própria sociedade em busca de mais recursos para mais investimentos bélicos e para manter a sua estrutura de poder, o que resulta no controle perpétuo da própria sociedade civil (VESENTINI, 1987, p.68-69).
   Para o historiador britânico Edward Thompson, o capital intensivo utilizado na produção bélica, e na manutenção dos contingentes gera pressões inflacionárias, desemprego e aperta o cerco nas economias onerando a população civil e a classe trabalhadora. Outro fator é que a tecnologia militar tem suas próprias formas de obsolescência, pois muitos equipamentos se tornam obsoletos antes mesmos de entrar em operação nas forças armadas e necessita de constante inovação exigindo cada vez mais recursos econômicos (THOMPSON, 1985, p.36). Se os defensores desse ‘’estado de coisas’’ alegam o avanço tecnológico alcançado, a história econômica de algumas nações demonstram uma falácia, pois comprovam que não é necessária a submissão as pesquisas militares para se avançar em tecnologia, o qual analisaremos em outro texto. Apesar de imagens, como a foto acima, onde se observa um enorme cemitério de aviões militares no Arizona – EUA portando mais de 4550 aviões de combate de alto custo apodrecendo, os gastos militares têm muito pouca abordagem na sociedade atual e, no geral, o que temos são informações reduzidas e esparsos artigos para a imprensa. Prevalece na atualidade um modelo que coloca a guerra como prioridade não apenas na sua execução, mas também na sua preparação infinita, o que será apresentado em outro texto.
Referências:
THOMPSON, EDWARD. Notas Sobre o Exterminismo, o Estágio Final da Civilização. Coletânea de textos: Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense. São Paulo. 1985, p. 15-57.
VESENTINI, JOSÉ WILLIAM. Imperialismo e Geopolítica Global. Geopolítica e geoestratégia internacional. Ed. Papirus. Campinas, p. 55-87. 1987.

Foto: Cemitério de aviões de combate no Arizona – EUA. Disponível em http://www.curiosidades10.com/bizarro/cemiterios_de_avioes.html, acesso em 20 de junho de 2012.




domingo, 27 de maio de 2012

Subordinação Tecnológica ao Militarismo



''Hoje os militares sabem tudo sobre os civis, mas os civis não sabem nada sobre os militares''. Paul Virilio


No ano de 2011, os gastos militares no mundo ultrapassaram um trilhão e quinhentos bilhões de dólares, segundo o Instituto de Pesquisas da Paz de Estocolmo – SIPRI. Os gastos envolvem o desenvolvimento e o comércio de equipamentos militares e a manutenção das forças armadas, treinamento de tropas e reposição de peças sobressalentes. O contínuo desenvolvimento tecnológico no setor militar exige enormes investimentos e, mesmos em tempos de paz, as nações investem vastos recursos nesse setor. Nenhum outro setor industrial no mundo consegue ter poder e hegemonia econômica e política comparada ao do complexo industrial militar. Esse poder foi suficiente para subordinar todo o desenvolvimento tecnológico mundial a esse segmento. Esse fenômeno industrial subordinou a produção tecnológica de ponta nos últimos 60 anos impulsionado pela tensão e pela guerra. As inovações tecnológicas mais avançadas da atualidade, bem como os cientistas mais bem pagos do mundo, estão a serviço do setor militar. Até a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), a produção e desenvolvimento militar dependiam das pesquisas cientificas e do crescimento industrial. No pós-guerra ocorreu uma inversão onde as pesquisas científicas, e o desenvolvimento industrial, passam a depender dos avanços alcançados pelos investimentos na produção militar (VESENTINI, 1987, p.55-87).
   Os aviões mais modernos e sofisticados são destinados para o uso militar, somente depois de estarem obsoletos para o uso bélico poderão ser produzidos para o uso civil. Os aviões mais rápidos são para o uso militar assim como as tecnologias mais avançadas de operação das aeronaves. Na produção de submarinos ocorre o monopólio quase por completo do uso militar. Na informática, na eletrônica e nos sistemas comunicação e de satélites ocorre o total predomínio do controle militar. O computador, a internet, a comunicação por satélites, os componentes para uso eletrônico, o GPS são conquistas proporcionadas pela pesquisa militar. As pesquisas para a guerra química e biológica contribuíram para grandes avanços na pesquisa genética e na bioquímica. A guerra do Vietnã contribuiu para a origem dos agrotóxicos modernos através das pesquisas com o agente laranja contribuindo para a produção e desenvolvimento de herbicidas e inseticidas que, posteriormente, passaram a ser utilizados na produção agrícola. A energia nuclear sempre esteve subordinada aos interesses estratégico-militares. Em suma, tudo o que há de mais moderno em tecnologia produzida no pós-guerra teve origem no complexo industrial militar. Essas tecnologias só passam ao uso civil quando estão obsoletas para o uso militar e, nessas condições, existem pesquisas constantes nos aperfeiçoamentos dos engenhos bélicos gerando mais avanços tecnológicos que poderão ser revertidos para o uso civil (VESENTINI, 1987, p.63.64).
  Sem duvida, os alicerces da produção industrial militar seria acompanhado da retórica dos enormes avanços tecnológicos conquistados pelo desenvolvimento de armamentos. Os defensores dos investimentos bélicos utilizam desses argumentos para analisar o salto gigantesco da tecnologia no pós-guerra. Com esses resultados positivos para a economia e o avanço em ciência e tecnologia seria pouco provável que esse sistema tivesse opositores, dado a imaturidade política que proporcionou uma deterioração das demandas democráticas e ampliou o poder de manipulação da população. A expressão mais visível e mensurável dessa intensa militarização é a corrida armamentista. Durante a Guerra Fria (1945-1991), os gastos militares dos países pobres quadruplicaram. Atualmente os gastos militares no mundo subdesenvolvido continuam a ser um ingrediente especial para os lucros das corporações ligadas ao setor militar. O resultado disso consiste na multiplicação incessante dos meios de destruição e no desperdício de recursos provocando o subdesenvolvimento da sociedade civil através da hipertrofia do militarismo provocado pela máquina de guerra estatal, o que será apresentado em outro texto. 

Referências:
VESENTINI, JOSÉ WILLIAM. Imperialismo e Geopolítica Global. Geopolítica e geoestratégia internacional. Ed. Papirus. Campinas, p. 55-87. 1987.

SIPRI YEARBOOK 2011, Instituto internacional de pesquisas da paz de Estocolmo. Disponível em WWW.SIPRI.ORG

Foto:  Gramatica do Mundo. Disponível em:




domingo, 29 de abril de 2012

A Democracia Perversa


 

''A democracia, entendida no sentido republicano como uma vida pública saudável e vibrante que amadurece e esclarece o ego privado, rapidamente se deteriorou sob os imperativos do crescimento e da guerra''. Alan Wolfe (1985)
      Os EUA são os principais representantes dos valores conquistados pelos meios democráticos. Esses valores foram idealizados através de um movimento pela construção de uma democracia republicana com os ideais de liberdade em seus alicerces profundamente defendidos pela formação política do país em seus primórdios. Sem dúvida quando se fala em uma democracia mundial, o senso comum destaca primeiramente o modelo político estadunidense, como se esse modelo fizesse parte de uma doutrina democrática com seus ideais e valores morais que devem ser seguidos e copiados para o bom convívio entre os povos. Mas então que democracia é essa que se comporta como defensora dos ideais e valores democráticos e, ao mesmo tempo, promove guerras, invasões e massacres disseminando o terror através de uma gigantesca máquina de guerra, sendo esse país considerado um exemplo de democracia e liberdade? Os EUA se envolveram, e continuam se envolvendo, em várias guerras de dimensões catastróficas no planeta na história recente. Prevalece o sistema de ‘’guerra aos fracos’’ (Ver texto: ‘‘Guerra aos Mais Fracos e Vulneráveis’’) tragicamente  estabelecido ainda no período da Guerra Fria, ou seja, a guerra direcionada contra estados e nações fracos e de populações vulneráveis que não podem reagir à agressão á altura.
     Dentro da complexidade da questão, intelectuais estudam e ocorre produções de  trabalhos sobre as características do modelo de democracia dos EUA. O que alguns estudiosos definem, como o sociólogo estadunidense Alan Wolfe, são as formas, como ocorreu às deformações dentro do sistema democrático estadunidense e as implicações desse fenômeno que possibilitou a ascensão de novos atores hegemônicos políticos e econômicos. Essas novas forças hegemônicas controlam a sociedade daquela que é considerada a maior democracia desenvolvida do planeta estabelecendo um modelo político e econômico modernizador, expansionista e perverso. Como já mencionei em outro texto, a maior parte da oposição ao militarismo dos EUA vem dos cidadãos mais esclarecidos do próprio país.  Vamos então as análises sociológicas e históricas  de Alan Wolfe e suas abordagens sobre as características da democracia estadunidense e suas implicações para a sociedade do país e para a humanidade:
   ‘’Nos EUA, duas concepções de democracia rivalizaram entre si, uma baseada na noção de república, outra se voltou para a expansão modernista. Uma forma republicana de governo seria de pequena escala, regionalista, pacifista, virtuosa, elitista e o modelo democrático era composto tipicamente por uma classe media, onde os cidadãos decidiriam seu destino por contratos diretos. Uma republica democrática seria reflexiva, deliberada e estável, incompatível com uma rápida industrialização ou com preparações bélicas. Por outro lado, as elites modernizadoras mantinham uma política nacionalista, belicosa, crescente, dinâmica e desejavam usar o estado para seus propósitos de expansão militar e industrial. Os nacionalistas precisavam de um projeto para superar a resistência republicana e o período entre a guerra Hispano-Americana (1898) e a deflagração da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) contribuíram aos seus propósitos pela arte de mobilizações das paixões populares, implementadas por lideres modernizadores como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson. Quando as energias democráticas se uniram as tendências modernizadoras, criou-se uma nova forma de democracia popular irritadiça, facilmente manipulável e demagógica. A guerra foi o ingrediente essencial para transformar o republicanismo democrático em democracia perversa (WOLFE, 1985, p.211-213).
   A guerra contribuiu sobre qualquer outro fator para a expansão da política nos EUA. Essa ‘’organização do entusiasmo’’ conseguiu reunir vastos contingentes de jovens trabalhadores operários e camponeses para sacrificar suas vidas em combate em todos os cantos do país para um ‘’bem comum’’. A guerra e a democracia perversa passam a se reforçar mutuamente. A manipulação desencadeada pela guerra tornou-se um modelo da dinâmica da opinião publica na democracia moderna. A própria guerra difundiu os laços uniformizadores e homogeneizadores que constituem os critérios de cidadania na democracia perversa. A democracia permitia aos despossuídos uma utopia onde a opressão da vida cotidiana cederia á camaradagem, á dignidade, á honra e à igualdade entre todos. A guerra contribuiu para esse ideal, mesmo de forma distorcida. A guerra oferece uma maior gratificação democrática e, conseqüentemente, um elevado controle estatal e uma maior concentração de poder na autoridade executiva. A guerra pervertera as demandas democráticas e a democracia perversa avançaria quando as demandas de crescimento se somaram as exigências da guerra (WOLFE, 1985, 214).
     Nos EUA, o crescimento econômico é um elemento considerado intrínseco à democracia porque esse crescimento representa a prosperidade material. Se o crescimento econômico entrar em crise, a democracia é afetada da mesma forma. Os benefícios adquiridos pela guerra e o crescimento econômico, simbolizado pelo Produto Interno Bruto – PIB, acentuou o escopo quantitativo da democracia, mas à custa da sua qualidade. Como descreve Wolfe no texto Política Perversa e Guerra Fria (1985), nenhuma sutileza do pensamento político esclarecido sobreviveria ao materialismo crasso da expansão econômica e a homogeneidade crassa da militarização:
 O estado democrático moderno foi tão amplo na base quanto estreito em propósitos. As tarefas do estado determinaram o que se permitiria como demanda democrática, mais do que as demandas democráticas moldaram o caráter do estado. A vida publica devia girar em torno da guerra e do crescimento, e a democracia deveria se adaptar a isso. A democracia se adaptou. Na verdade, uma sociedade de massas composta por indivíduos geralmente não pensantes, freqüentemente ignorantes, complacentemente privatizados, a expressar sua vontade em atividades publicas descontextualizadas, fragmentadas e impotentes, de forma a-histórica e muitas vezes contraditória, dificilmente seria um obstáculo a realização do crescimento e da guerra, e ate parecia a muitos o sistema mais perfeito possível para realizar esses fins (WOLFE, p. 215, 1985).
    Segundo Alan Wolfe, a Guerra Fria contribuiu inteiramente para transformar a democracia estadunidense de uma visão republicana para uma revisão modernizada perfeitamente adaptada as lutas da guerra e as tarefas de expansão do estado. Ao invés de sustar a guerra, a democracia contribuiu com ela. A união entre a guerra e a democracia perversa se solidificou com a permanência da tensão internacional, mas foi com as inovações tecnológicas (incluindo a nuclear) que a se problematizaria a questão unindo tecnologias militares sem precedentes a uma ignorância política sem precedentes. Comprimidos entre memórias democráticas e realidades de alta tecnologia, os estadunidenses se entregam ao fetiche em apoiar as guerras e ao mesmo tempo se portarem como ‘’pacificadores’’. Na mente do povo, a guerra ainda tem uma relação com honra e dignidade. Quando se envolve ameaças a segurança nacional, a sociedade se volta toda ao manto militarista. A oposição invoca o governo, os sindicatos participam, os meios de comunicação cooperam, sacrificam-se os orçamentos equilibrados, tolera-se a inflação e aceitam-se os déficits comerciais. Em suma, nenhuma outra questão é mais manipulável do que a envolvendo a segurança nacional (WOLFE, 1985, p.216-221)’’.
     A facilidade da manipulação descrita por Wolfe é assegurada por um enorme mecanismo de controle econômico, educacional e midiático. As vítimas desse sistema são inúmeras, desde os trabalhadores recrutados como soldados do país (Os soldados que morrem nas guerras são, geralmente, das classes mais pobres da população dos EUA) até os infelizes habitantes das regiões assoladas pela guerra ao redor do mundo. Nos dias atuais, a sociedade dos EUA permanece em sua nostalgia delirante e perigosa da dogmática segurança nacional. Como afirma Wolfe, a ampliação da guerra e o crescimento da democracia perversa seguem juntos. É ‘’a barraca militar, onde todos dormem lado a lado’’. Quando as guerras de hoje terminar, certamente, outras irão começar, resta saber quem serão as próximas vítimas da hegemônica máquina de guerra mundial. A grande mídia já atua na preparação do terreno para novas investidas militares sempre nas áreas mais pobres do planeta.
   
Referências:
-WOLFE, ALAN. Política Perversa e Guerra Fria. Coletânea de textos: Exterminismo e Guerra Fria. Editora Brasiliense. São Paulo, p. 206-237. 1985

-Foto: Massacre de Mi Lay, Vietnã (1968) :
MUNDIAL, COPYRIGHT. O Livro da Vida: Morte por Atacado. Londres: Marshal Cavendish Limited, 1971. P. 2362-2367.





  

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